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Livros | Mrs Dalloway, Virginia Woolf

Começo este novo ano no blog com um livro, no âmbito de um clube/desafio de leitura chamado Uma Dúzia de Livros. A pessoa por detrás desta ideia chama-se Rita da Nova e não é a primeira vez que trago algo organizado por ela aqui ao blog, começando pelo workshop de escrita criativa em que participei, há mais de um ano (o tempo passa!). Este novo desafio baseia-se na leitura de um livro por cada mês do ano – daí uma dúzia – e o tema de janeiro não podia ser mais do meu agrado.

Quando li que o primeiro tema deste desafio seria um livro escrito por uma mulher, pensei instantaneamente numa resolução minha que ando a cumprir aos pouquinhos – começar a ler autores que tenho de ler uma vez nesta vida. Curiosamente, um dos artigos com sugestões de livros para este tema, que nos enviou a Rita, continha exatamente este princípio – women to read before you die – e foi lá que encontrei Virginia Woolf. Há certos nomes – de personagens históricas, de pensadores, de artistas – que nos estão gravados na memória, por pura cultura geral, mas que não conhecemos; Virginia Woolf era, com certeza, um desses nomes. Já na livraria, encontrei uma coletânea de escritos da autora sobre as viagens que fez durante a sua vida e sobre as quais foi escrevendo em diversos momentos – o livro chama-se Viagens e estava absolutamente certa de que seria a minha escolha. Estes meses têm sido marcados pelas cidades europeias que tenho vindo a conhecer, por virtude do meu trabalho, muitas delas por lá mencionadas, e, por isso, acabei por perceber que gostaria de ler aquele livro com calma e vagar, possivelmente à medida que as (re)visito. Pouco depois, cheguei a Mrs Dalloway.

Gosto muito de recordar os livros que li pelo meu estado de espírito enquanto os lia – recordo, por exemplo, Call Me By Your Name pela leveza da minha primavera do ano passado, apesar de apenas ter escrito sobre o livro alguns meses mais tarde. Sei que vou recordar Mrs Dalloway por uma época em que, por mero acaso, diversos elementos da cultura inglesa estiveram bastante presentes na minha vida. Comecei a acompanhar Downton Abbey – uma série sobre a aristocracia inglesa dos anos 10 a 20, que recomendo vivamente – ao mesmo tempo em que comecei a ler Mrs Dalloway e, em certa forma, encontrei-me algures presa neste universo pelas semelhanças dos dois elementos em si. Paralelamente, escolhi a cidade de Londres – palco de Mrs Dalloway – para a minha primeira viagem em férias deste ano e, novamente, encontrei-me especialmente presente nas ruas da capital inglesa.

Sobre Virginia Woolf: uma escrita cheia de vírgulas, pontos e vírgulas, pontos de exclamação antes de vírgulas, num estilo verdadeiramente distinto de tudo o que li até agora. Em Mrs Dalloway, leva-nos para o dia – um único dia – em que Clarrisa, a própria da Mrs Dalloway, organizará (mais) uma festa. Clarissa recebe-nos neste universo na manhã desse mesmo dia, ainda nos preparativos para o evento, enquanto passeia nas ruas londrinas à procura das flores ideias para a decoração. Na sua mente não há espaço para quietude: pelo regresso de Peter Walsh, a sua paixão de juventude; pelo desinteresse mas apego por Richard, o seu marido; pela incompatibilidade com Elizabeth, a sua filha; pela neura com Miss Kilman, com quem a filha prefere estar… e por aí fora. Gostei especialmente da abordagem ao tema da saúde mental – uma vez que esta história se desenrola no pós Primeira Guerra Mundial, conseguimos observar o agravamento da saúde mental de Septimus, um homem que sofre com as mazelas dessa experiência (um ponto em que, novamente, Mrs Dalloway se assemelha à série que tenho acompanhado).

Confesso que me perdi, muitas vezes, em Mrs Dalloway – encontrei alguma dificuldade em acompanhar o passo de Clarissa, à medida que nos apresenta várias personagens, vários temas, mergulhando nos seus próprios pensamentos e nas suas próprias opiniões. Encontrei muito do que estava à espera – a intriga e maledicência entre a classe alta inglesa, a importância da aparência nesta sociedade e, no meio de tudo isto, o conflito de Clarissa em relação ao que sentiu (ou ainda sente?) dos seus tempos de juventude. Quero muito reler Mrs Dalloway, até captar os mais subtis detalhes deste dia de primavera, que termina, no final da sua festa, quando um médico convidado chega à última da hora porque um paciente se suicidou – um acaso que dá muito que pensar à Mrs Dalloway.

O tema do próximo mês será um livro sobre famílias e, sinceramente, ainda não sei o que escolher. Sugestões desse lado?

Inês Nobre
Um blog sobre o que mais me apaixona, como melhor me sei expressar - pela moda e pela escrita.

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