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Moda | Fashion Series: Slow Fashion

No final do último post, em que dei início à nova série Fashion Series, deixei-vos uma questão: qual a alternativa a um modelo de moda que prima pelo desenvolvimento de problemas no âmbito social, económico e ambiental? Venho responder-vos a essa questão ao escrever sobre Slow Fashion – a alternativa sustentável no mundo da moda.

O conceito de Slow Fashion apareceu no início do novo século, alguns anos após as marcas terem começado a aderir à Fast Fashion. Ao contrário desta última, a slow fashion preza-se pelo equilíbrio entre a moda, a sociedade e o ambiente, fundamentando-se em valores como a responsabilidade e a transparência. A slow fashion pauta-se pelo respeito pela moda como uma forma de expressão artística, pela aposta na produção de qualidade, pela consciencialização acerca do grande problema que é o consumismo e pela sustentabilidade social e ecológica na elaboração das peças.

Contrariamente à fast fashion, na qual as marcas caem no erro de apresentarem peças praticamente iguais às concorrentes, a slow fashion valoriza a diversidade e a identidade de cada marca, bem como o sentido de originalidade de quem desenha. Paralelamente, preza-se também o valor das peças – qual o nome por detrás do design, qual a história por detrás da coleção, qual a razão pela combinação de tecidos e materiais. Este valor associado a uma peça de roupa torna-a menos substituível e descartável – para mim, como exemplo, há um valor inigualável numa peça feita especialmente à mão, pelo tempo e dedicação de quem a fez, conferindo um caráter de humanidade e de unicidade que não sinto no fabrico industrial.

As marcas de slow fashion permitem, assim, uma maior liberdade para escolher as peças que melhor correspondem ao meu estilo, respeitando igualmente a sazonalidade das coleções. Torna-se difícil encontrar peças diferentes de marca para marca, pelo que esta liberdade torna-se mais do que uma questão de aparência, também de identidade e de expressão. A característica que mais me surpreendeu na slow fashion foi a ideia do “remendo”, muito associada à pobreza, a que recorro com bastante frequência. As peças são desenhadas para um modelo de corpo standard, sendo perfeitamente normal que não assentem igualmente bem em todos os corpos – todas(os) somos diferentes. Costumo recorrer a uma costureira para apertar as minhas roupas, fazer as baínhas nas minhas calças ou ajustar outras peças ao meu corpo, conseguindo com que as minhas peças me assentem bem durante muito tempo.

good quality equals long-term durability

Nas marcas de slow fashion existe uma maior transparência na origem dos produtos, o que me remete para uma melhor qualidade. Ao priorizar o local em relação ao global, tenho a sensação de que consigo visualizar o processo de produção da peça, ainda que não o testemunhe, enquanto na fast fashion as roupas são feitas a quilómetros e quilómetros de distância, o que oculta, de certa forma, a sua origem. A produção regional/nacional costuma ser bastante valorizada pela qualidade a que consegue corresponder face à produção global, criando também uma relação de confiança desde a origem à distribuição.

slow fashion promove a consciência – e esta é a característica que considero mais importante neste modelo. Pratica preços reais, que incorporam todos os custos, promovendo igualmente um sentido de consciência em relação à produção de uma peça. Uma das coisas que mais me fazem recuar quando penso em doar uma peça de roupa é o valor monetário a que a associo – se todas as nossas peças foram adquiridas por um preço bastante acessível, qual a dificuldade em as descartarmos? Ao praticarem preços justos, as marcas de slow fashion incentivam quem compra a conhecer o verdadeiro valor de cada produto.

process matters. quality matters. honesty matters.

As marcas de slow fashion mantêm a produção a uma pequena e/ou média escala, o que permite a coexistência de vários produtores pequenos ao invés de um grande grupo que detém todas as lojas, surgindo uma oportunidade para um maior equilíbrio económico. Existe, assim, uma maior aproximação entre quem produz e quem consome, desenvolvendo-se uma relação de transparência e compromisso entre ambos. As pessoas por detrás das marcas acabam por produzir com melhor qualidade para as pessoas que escolhem comprar os seus produtos, enquanto estas últimas gostam de apoiar o comércio local. Com menos intermediários entre origem e distribuição, os produtos acabam também por encarecer menos.

Com um comércio mais justo, a slow fashion estimula também o equilíbrio entre a moda e o ambiente. As marcas responsáveis têm a preocupação de produzir de forma consciente, minimizando os impactos desta área no nosso planeta. Para além disto, a slow fashion promove também a renovação, a reciclagem e, por fim, a doação de roupas. Atentas a uma tendência cada vez maior, algumas marcas de fast fashion começam a apresentar coleções produzidas de forma mais responsável; no entanto, confesso que sou muito pouco recetiva a estes produtos pela mínima credibilidade que lhes confiro – basicamente, não me convencem.

Bem sei que podemos encontrar alguma dificuldade em comprar exclusivamente marcas de slow fashion – pelos preços acima da média a que estamos habituadas(os), pelo alcance mais difícil e mais demorado, pela falta de transparência e de confiança de algumas estratégias de marketing. Ainda assim, a principal mensagem que a slow fashion transmite é a de consumo consciente e responsável. Se encontrarmos um equilíbrio no nosso consumo entre estas marcas de slow fashion e as de fast fashion em que, invariavelmente, acabamos por comprar algumas peças, estamos a contribuir para a redução do consumismo e da produção irresponsável e, consequentemente, a comprar com maior consciência. Podem (re)ler os meus cinco princípios para um consumo consciente, onde exploro um bocadinho mais esta questão.

            Performance Fashion

Performance Fashion é um conceito que, para mim, está inerente à slow fashion. No que diz respeito ao design das peças, ao contrário do que acontece na fast fashion, este modo exige tempo, dedicação e conhecimentos para a criação de peças únicas e originais. Exige-se um elevado nível de qualidade dos tecidos e dos materiais, existindo, por isso, um maior controlo para a garantir. As peças são elaboradas de forma a assegurar uma longa durabilidade, sendo distribuídas por estação e, geralmente, em pequenas quantidades, para proporcionar a sensação de exclusividade.

Os tecidos e os materiais utilizados na performance fashion não requerem o uso de petróleo, sendo que tanto nos de origem vegetal – como o algodão e o linho – como nos de origem animal – como a lã e a seda – se conseguem garantir alguns valores indispensáveis para reduzir o impacto desta indústria no ambiente. Ao apostar em tecidos reutilizáveis, biodegradáveis, orgânicos e free range – o que significa que são criados em condições naturais -, a performance fashion consegue encontrar o equilíbrio entre a moda e os recursos para a desenvolver. Deixo-vos uma imagem que resume muito bem a diferença fast fashion vs performance fashion e pela qual me guiei para escrever parte deste e do último post.

Depois desta primeira edição das Fashion Series, quero perguntar-vos: gostam de ver estes temas abordados? Que mais gostariam de ler dentro desta temática da moda consciente e responsável? Partilhem comigo na caixa de comentários!

Inês Nobre
Um blog sobre o que mais me apaixona, como melhor me sei expressar - pela moda e pela escrita.

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