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Slow Living

O mundo mudou bastante desde que vos escrevi pela última vez – e, curiosamente, sobre a minha viagem a Nova Iorque, que seria impensável neste momento. De repente, de uma semana para a outra, vimo-nos obrigadas(os) a mudar os nossos hábitos, as nossas rotinas, as nossas vidas. No entanto, não me canso de dizer que, apesar de tudo o que se está a passar, devemos agradecer por simplesmente estarmos bem. Esta pandemia está a ser muito mais intensa para tantas pessoas, desde quem sofre com o vírus a familiares a profissionais na linha da frente. Por isso, nos dias menos fáceis, lembremo-nos da sorte que temos em podermos afirmar que estamos em casa, em segurança, a cuidar de nós. Queria escrever sobre slow living há algum tempo; tenho este tema no meu caderninho de ideias para o blog há meses, mas nunca cheguei a elaborar algo que valesse a pena partilhar. Parece-me agora, mais do que nunca, numa fase em que o mundo se viu obrigado a fazer uma pausa, que faça então sentido partilhar algumas ideias sobre esta forma de viver devagar.

Comecemos pelo princípio: as primeiras recomendações de isolamento social coincidiram com o começo das minhas férias, o que calhou muito bem. Estou em casa há três semanas, como a grande maioria das pessoas. Para minha surpresa, estas férias, em que supostamente andaria de um lado para o outro a conhecer novos destinos no mapa, tornaram-se nas mais relaxantes desde que comecei a trabalhar, por uma simples razão – slow living. Sou-vos sincera: a minha primeira semana de férias foi um autêntico descalabro, em que pouco mais fiz do que sair da cama para o sofá e do sofá para a cama. Por vezes também precisamos de dias assim, não é? Passada essa semana, lá pensei que estava na hora de fazer algo de mais produtivo e, acima de tudo, saudável por mim. A minha mãe começou a trabalhar a partir de casa pela mesma altura, o que me permitiu melhor estabelecer horários e diferenciar dias de semana para o fim-de-semana. Desde então, tenho trabalhado muito nos hábitos diários que estabeleci no início do ano – seria algo interessante de partilhar aqui no blog? – e, pela primeira vez, tenho cumprido com bastante naturalidade e consistência. Porquê? Porque simplifiquei os meus dias.

Há muitos anos que ando num ritmo acelerado – desde, na faculdade, estudar dois anos ao mesmo tempo para que a minha decisão de mudança de curso não me fizesse perder um ano, a começar a estagiar enquanto ainda estava a terminar os estudos – e só comecei a desacelerar quando terminei a licenciatura e me dediquei a 100% ao trabalho. No entanto, passado uns meses, decidi mudar de área profissional, o que resultou mais uma vez numa fase muito desassossegada. Quando estava novamente a desacelerar, com um estilo de vida mais simples e com mais descanso, inscrevi-me no mestrado – e é nesta fase que me encontro. Portanto, se tenho uma ligeira tendência para ocupar os meus dias ao máximo? Sim. Mas ando a trabalhar muito para conseguir, apesar de todas as ocupações, abraçar um estilo de vida mais simples, mais descomplicado, mais desafogado.


Nasceu em Itália, nos anos 80, o primeiro conceito relacionado com esta forma de abrandar – slow food – e daí se desenvolveu todo um novo movimento. Pode definir-se slow living como uma escolha pelo simples, pelo vagar, pelo consciente, pelo intencional. Quantas vezes ouvimos dizer que a vida “passa por nós” a velocidade relâmpago sem que nos apercebamos? Na minha opinião, esta rapidez com que tudo passa está intimamente ligada à pressa no dia-a-dia, nos pensamentos e nos comportamentos – porque, quando se vive conscientemente um determinado tempo, sente-se o vagar das horas e dos dias. Dei por mim a pensar nesta ideia de viver com mais calma, consciência e intenção durante a minha viagem na Grécia – as viagens realmente proporcionam alguns dos melhores momentos de introspeção, não é? Contrariamente às minhas viagens a cidades como Roma, Londres ou NYC, com imensos sítios para conhecer, em que parece que chegamos a casa mais cansadas(os) do que quando partimos, a minha semana na Grécia foi mesmo tranquila. Gosto de aproveitar uma viagem ao máximo; mas, para mim, isso significa absorver cada momento, com calma e vagar. Sou defensora de que mais vale ficar a conhecer cinco sítios do que passar os olhos por dez – e é exatamente pela pressa de ir de um ponto para o outro para ver o máximo que, muitas vezes, as viagens podem tornar-se tão cansativas. O slow living baseia-se muito nisto: em dar prioridade ao que verdadeiramente importa.

Em paralelo à slow fashion, o slow living defende a qualidade sobre a quantidade. Este conceito de conhecer e de seguir as nossas prioridades gera mais tempo e mais espaço para o mais importante, o que permite que se façam as coisas com mais calma. Não se trata de viver exageradamente devagar nem desnecessariamente rápido – ao ritmo certo. Esta ideia de slow living defende que a pressa inconsciente não pode ser o melhor caminho – nem a extrema lentidão, para quem nem a pessoa mais desocupada do mundo tem tempo! Na verdade, não há grandes regras para este slow living – e essa é uma das características de que mais gosto no movimento, porque permite uma adaptação própria ao dia-a-dia de cada pessoa, deixando zero espaço ao erro. Para mim, slow living significa acordar meia hora mais cedo para preparar um bom pequeno-almoço com calma ou deitar-me meia hora mais cedo para ler antes de adormecer – concentrar a minha atenção no que mais importa para mim e, desta forma, poder viver cada momento com mais vagar.


Sempre ambicionei um estilo de vida de uma mulher de negócios, que mal tem tempo para almoçar ou que não consegue relaxar a um domingo. Para mim, era sinónimo de sucesso, de competência, de fazer acontecer. Todas(os) temos dias mais ocupados, com mais carga de trabalho, em que não há tempo para parar. Não há mal nenhum em existirem dias que parecem não ter fim – quando comecei a estagiar enquanto ainda estudava saía de casa pelas 8h e chegava pelas 21h e, mais recentemente, com o meu trabalho como assistente de bordo e as aulas do mestrado, muitas vezes saí de casa pelas 5h e cheguei pelas 21h também. Estes dias são muito cansativos, mas são pontuais. Garanto-vos que ritmos alucinantes apenas são sustentáveis quando temporários. O conceito de slow living não se restringe a quem tem agendas menos ocupadas; pelo contrário, ensina a priorizar o que é verdadeiramente relevante, na construção de um estilo de vida mais consciente de nós próprias(os) e do que nos rodeia.

Numa fase em que passo todo o dia em casa, com bastante tempo livre, tenho trabalhado nesta consciência da atenção que distribuo durante o dia. Como escrevi no início, pela primeira vez estou a conseguir cumprir as minhas rotinas com consistência, desde o primeiro dia em que deixei o percurso cama-sofá-cama. Tem sido verdadeiramente recompensador ver as mudanças que ocorrem na nossa maneira de estar assim que passamos a dar prioridade ao que nos faz bem, com muita intenção e muito amor próprio. Penso que, de certa forma, todas(os) nós andamos a aplicar algum slow living desde que as nossas vidas foram postas em pausa por causa do que se passa no mundo. Se, como eu, também estão por casa (e espero que sim), porque não experimentarem abrandar o vosso ritmo durante uns dias e ver as mudanças que daí decorrem? Garanto-vos que, independentemente do quanto aplicarem este conceito de slow living nas vossas vidas, será um processo de autoconhecimento interessante e, com certeza, trazer-vos-á uma noção mais clara daquilo que vos faz bem. Já conheciam este conceito? Como têm passado os vossos dias nesta nova realidade? Contem-me nos comentários! Stay safe!

Inês Nobre
Um blog sobre o que mais me apaixona, como melhor me sei expressar - pela moda e pela escrita.

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